Sempre é tempo de conversas pontuais

Ontem fui visitar a minha mãe.  Sentamos em um sofá na varanda, viradas para a Pedra da Gávea.  Ela mora no 10º andar e a vista é o céu e aquela profusão de verde a cobrir as montanhas.  Antes de colocar a bolsa no chão, tirei o telefone e respondi, depressa, duas ou três mensagens.  Nem peguei os óculos.  Assim que o guardei, ela fechou a cara e fez a reclamação de costume: “Vocês não desligam mais desse troço?”.  Eu ri.  Minha mãe, que anos atrás saía cedo para trabalhar, só voltava à noite, e não parava quieta, continuou: “É o cúmulo.  Eu não consigo acompanhar essa velocidade toda.  É um excesso de comunicação…”.  Então, interrompeu o que ia dizer e concluiu da mesma forma, desde que a memória começou a abandoná-la: “Aliás, na verdade é uma descomunicação total”.  Ficamos em silêncio.

Pouco depois, seus olhos voltaram a brilhar.  Mamãe apontou para o lado de fora e disse: “Olha só essa vista.  Isso aqui é o paraíso.”  E começou a falar sobre onde o vento batia e onde não batia.  Falou sobre o balanço de uma árvore à esquerda, de uma palmeira no topo, de uma mangueira à direita.  Enquanto isso, um pombo atravessou a nossa frente.  Sem relógio, ela comentou:  “Essa gaivota é tão pontual…  Sempre passa por aqui na mesma hora, sem ninguém romper o seu voo”.  Depois falou sobre o casal de passarinhos que todo fim de tarde pousava na luminária da varanda para namorar.  E, sem variar, estendeu o discurso ao cotidiano: “É incrível como houve um processo civilizatório enorme de uns tempos para cá.  Não se vê mais desigualdade social.  As pessoas se vestem iguais, não tem mais morador de rua.  Agora que todo mundo consegue colocar as crianças na escola, desde pequenas, os problemas se resolveram.  A educação é a base de tudo mesmo.”  Sabia que aquele sempre fora o sonho da vida dela e não ousei romper-lhe o voo.

Por fim, terminou: “se eu fosse escritora, escreveria um livro sobre isso.”  Desta vez, interrompi. “Mãe, você não precisa ser escritora para escrever sobre isso nem sobre qualquer coisa.” E lembrei-lhe de que ela tinha escrito e publicado dois livros: um sobre matemática e outro sobre o projeto de meninos de rua que dirigiu por anos.  Minha mãe encheu o peito, deu um suspiro e abriu um sorriso largo.  Não disse nada.  Não precisava. 

———————

Escrever nos leva para além dos nossos limites físicos.  E podemos escrever livros, mesmo sem sermos escritores.  Essa é a proposta da Crie Seu Livro, plataforma gratuita de criação de livros físicos e digitais online.  Você pode escrever e ilustrar com os seus desenhos e fotos pessoais ou com as mais de quatro mil imagens disponíveis lá, do jeito que quiser, sem limites para a imaginação. 

Deixe um comentário

WhatsApp?
Rolar para cima